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FIAT LUX
FAÇA-SE LUZ

 

Textos e Traduções

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Ode à Paz (poema de Natália Correia (1923-1993))
Anne Victorino d’Almeida

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz,
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
Deixa passar a Vida!

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Três poemas de Fernando Pessoa 
Tiago Derriça


1 - Dorme, que a vida é nada!


Dorme, que a vida é nada!
Dorme, que tudo é vão!
Se alguém achou a estrada,
Achou-a em confusão,
Com a alma enganada.

Não há lugar nem dia
Para quem quer achar,
Nem paz nem alegria
Para quem, por amar,
Em quem ama confia.

Melhor entre onde os ramos
Tecem dosséis sem ser
Ficar como ficamos,
Sem pensar nem querer.
Dando o que nunca damos.


2 - Entre o sono e o sonho


Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre —
Esse rio sem fim.

3 - O menino da sua mãe

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas traspassado

— Duas, de lado a lado —,

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe. Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embainhada

De um lenço... Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

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TE DEUM em louvor da Paz (no centenário do fim da I Grande Guerra)

Eurico Carrapatoso

1 - Le dormeur du val (poema de Arthur Rimbaud (1854-1891), Outubro de 1870)

C'est un trou de verdure, où chante une rivière

Accrochant follement aux herbes des haillons

D'argent; où le soleil, de la montagne fière,

Luit: c'est un petit val qui mousse de rayons.

 

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,

Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,

Dort; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,

Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

 

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme

Sourirait un enfant malade, il fait un somme:

Nature, berce-le chaudement: il a froid.

 

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;

Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,

Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

 

Era um recanto verde onde um ribeiro canta,

prendendo às ervas seus farrapos de cristal

e rebrilhando ao sol que, loiro, se levanta.

Era um pequeno e verde e luminoso vale.

 

Sobre a erva, um soldado, a boca aberta, inclina

a fronte nua sobre os verdes agriões,

Dorme. E sobre o seu leito estende-se a neblina

e vai chorar a luz seus macios clarões.

 

Os pés nos juncos, face pálida e risonha,

parece uma criança adormecida; e sonha...

Aquece-o, Terra-Mãe! E acalenta-o com jeito!

 

Mãos sobre o seio, em cruz, dorme tranquilamente;

nem os beijos da luz, nem os perfumes sente.

E dois cravos de sangue abrem-lhe sobre o peito.

 

[Tradução de Rodrigo Solano (1879-1910), poeta português, em finais do século XIX]

2 - Te Deum laudamus

 

Te Deum laudamus: te Dominum confitemur.

Te aeternum Patrem omnis terra veneratur.

Tibi omnes Angeli; tibi caeli et universae potestates.

Tibi Cherubim et Seraphim incessabili voce proclamant:

Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth.

Pleni sunt caeli et terra majestatis gloriae tuae.

 

Te gloriosus Apostolorum chorus;

Te Prophetarum laudabilis numerus;

Te Martyrum candidatus laudat exercitus.

Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia: Patrem immensae majestatis;

 

Venerandum tuum verum et unicum Filium:

Sanctum quoque Paraclitum Spiritum.

A Vós, ó Deus, louvamos e por Senhor nosso Vos confessamos.

A Vós, ó Eterno Pai, adora toda a Terra.

A Vós, todos os Anjos, a Vós, os Céus e todas as Potestades;

A Vós, os Querubins e Serafins com incessantes vozes proclamam:

Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos Exércitos!

Os Céus e a Terra estão cheios da vossa glória e majestade.

 

A Vós, o glorioso coro dos Apóstolos,

A Vós, a assembleia dos Profetas,

A Vós, o exército dos mártires engrandece com louvores!

A Vós, Eterno Pai, Deus de imensa majestade;

 

Ao Vosso verdadeiro e único Filho,

Do mesmo modo ao Espírito Santo, nosso consolador.

3 - Tu Rex gloriae, Christe

 

Tu Rex gloria, Christe.

Tu Patris sempiternus es Filius.

 

Vós sois o Rei da Glória, Cristo!

Vós sois Filho sempiterno de vosso Pai!

4 - Si je mourais là-bas (poema de Guillaume Apollinaire (1880-1918), Nimes, 30 de Janeiro de 1915)

Si je mourais là-bas sur le front de l'armée
Tu pleurerais un jour ò Lou ma bien-aimée
Et puis mon souvenir s'éteindrait comme meurt
Un obus éclatant sur le front de l'armée

Un bel obus semblable aux mimosas en fleur

Et puis ce souvenir éclaté dans l'espace
Couvrirait de mon sang le monde tout entier
La mer les monts les vals et l'étoile qui passe

Les soleils merveilleux mûrissant dans l'espace
Comme font les fruits d'or autour de Baratier

Souvenir oublié vivant dans toutes choses
Je rougirais le bout de tes jolis seins  roses
Je rougirais ta bouche et tes cheveux sanglants
Tu ne vieillirais point toutes ces belles choses
Rajeuniraient toujours pour leurs destins galants

Le fatal giclement de mon sang sur le monde
Donnerait au soleil plus de vive clarté
Aux fleurs plus de couleur plus de vitesse à l'onde
Un amour inouï descendrait sur le monde
L'amant serait plus fort dans ton corps écarté

Lou si je meurs là-bas souvenir qu'on oublie
- Souviens-t'en quelquefois aux instants de folie
De jeunesse et d'amour et d'éclatante ardeur
Mon sang c'est la fontaine ardente du bonheur
Et sois la plus heureuse étant la plus jolie

Ô mon unique amour et ma grande folie

La nuit descend
On y pressent
Un long, un long destin de sang

Se eu morresse na frente de batalha
Chorarias ó Lou minha bem amada
E então o que eu fui extinguir-se-ia
Qual obus ofuscante
Um radioso obus semelhante às mimosas em flor

E então a lembrança do meu eu resplandecente no espaço
Cobriria o mundo inteiro com o meu sangue
O mar os montes os vales a estrela transitória que se move
Os sóis maravilhosos amadurecendo no espaço
Como frutos de ouro circundando Baratier

Lembrança suspensa que permanece em todas as coisas
Tornaria rubros teus lindos e rosáceos seios
Tua boca e teus cabelos escarlates
Jamais envelhecerias
E toda essa beleza ganharia novo esplendor

O derramar do meu sangue no mundo
Daria ao sol uma claridade mais viva
Um novo colorido às flores e um renovado vigor às ondas
Um amor inaudito desceria sobre o mundo
E o amante tornar-se-ia mais forte sobre o teu corpo aberto

Lou se eu morrer em combate lembrança suspensa
- Evoca por vezes os instantes da loucura
Da juventude do amor e da nossa paixão ardente
O meu sangue é a fonte a jorrar de felicidade
Sê feliz sendo a mais bela

Ó meu único amor e minha grande loucura

[L] A noite desce
[O] Pressentimos
[U] Um longo, um longo destino de sangue

[Tradução de Lia Montanha (Maio de 2018)]

 

5 - Tu ad liberandum suscepturus hominem

Tu ad liberandum suscepturus hominem,
Non horruisti Virginis uterum.

Vós, para vos unirdes ao homem e o resgatardes
Não desdenhastes entrar no seio de uma Virgem!

6 - Tu, devicto mortis aculeo

Tu, devicto mortis aculeo, aperuisti credentibus regna caelorum.
Tu ad dexteram Dei sedes, in gloria Patris.
Judex crederis esse venturus.

Te ergo quaesumus, tuis famulis subveni
quos pretioso sanguine redemisti.
Aeterna fac cum sanctis tuis in gloria numerari.


Vós, vencedor do aguilhão da morte, abristes aos fiéis o Céu.
Vós estais sentado à direita de Deus, no glorioso trono do vosso Pai!
Cremos que nos vireis julgar no fim do mundo.

A Vós, portanto, rogamos que socorrais os vossos servos
a quem remistes com o Vosso precioso Sangue.
Fazei que sejamos contados na eterna glória, entre o número dos Santos.

7 - O menino da sua mãe (poema de Fernando Pessoa (1888-1935), 1926)


No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado -
Duas, de lado a lado -
Jaz morto e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços extendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tam jovem! que jovem era!
(Agora que edade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe.»

Cahiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lh'a a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Elle é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço... Deu-lh'o a creada
Velha que o trouxe ao collo.

Lá longe, em casa, ha a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Imperio tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.


[Preservou-se a ortografia original do poema, tal como foi escrito por Fernando Pessoa e como consta na sua 1º edição na Revista Contemporânea, Série 3,n.° 1.D. 47, Maio de 1926]

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